108o aniversário de Hannah Arendt

David Harvey: leia Piketty, mas não se esqueça de Marx

– ON 23/05/2014

77026525.jpg

Reflexões sobre desigualdade do economista francês são brilhantes e oportuníssimas. Porém não conte com ele para compreender dinâmica central do sistema

Por David Harvey | Tradução: Inês Castilho

Thomas Piketty escreveu um livro chamado Capital que causou uma tremenda comoção. Ele defende a taxação progressiva e a tributação da riqueza global como único caminho para deter a tendência à criação de uma forma “patrimonial” de capitalismo, marcada pelo que chama de uma desigualdade “apavorante” de riqueza e renda. Também documenta com detalhes excruciantes, e difíceis de rebater, como a desigualdade social de ambos, riqueza e renda, evoluíram nos últimos dois séculos, com ênfase particular no papel da riqueza. Ele aniquila a visão, amplamente aceita, de que o capitalismo de livre mercado distribui riqueza e é o grande baluarte para a defesa das liberdades individuais. Piketty demonstra que o capitalismo de livre mercado, na ausência de uma grande intervenção redistributiva por parte do Estado, produz oligarquias antidemocráticas. Essa demonstração deu base à indignação liberal e levou o Wall Street Journal à apoplexia.

O livro tem sido frequentemente apresentado como substituto para o século 21 do trabalho do século 19 de Marx, que leva o mesmo título. Piketty nega que fosse essa sua intenção, na verdade – o que parece certo, uma vez que seu livro não é, de modo algum, sobre o capital. Ele não nos conta por que razão ocorreu a catástrofe de 2008, e por que está demorando tanto para tanta gente se levantar, sob o fardo do desemprego prolongado e da execução da hipoteca de milhões de casas. Ele não nos ajuda a entender por que o crescimento é tão medíocre hoje nos EUA, em oposição à China, e por que a Europa está travada sob uma política de austeridade e uma economia de estagnação.

O que Piketty mostra estatisticamente (e estamos em dívida com ele e seus colegas por isso) é que o capital tendeu, através da história, a produzir níveis cada vez maiores de desigualdade. Isso, para muitos de nós, é má notícia. Além disso, é exatamente a conclusão teórica de Marx, no primeiro volume de sua versão do Capital. Piketty fracassa em observar isso, o que não é surpresa, já que sempre clamou, diante das acusações da mídia de direita de que é um marxista disfarçado, que não leu O Capitalde Marx.

Piketty reúne uma grande quantidade de dados para sustentar sua argumentação. Sua descrição das diferenças entre renda e riqueza é persuasiva e útil. E faz uma defesa cuidadosa da tributação sobre herança, do imposto progressivo e de um imposto sobre a riqueza global como possíveis (embora quase certamente não politicamente viável) antídotos contra o avanço da concentração de riqueza e poder.

Mas, por que razão ocorre essa tendência ao crescimento da desigualdade? A partir de seus dados (temperados com ótimas alusões literárias a Jane Austen e Balzac), ele deriva uma lei matemática para explicar o que acontece: o contínuo aumento da acumulação de riqueza por parte do famoso 1% (termo popularizado graças, claro, ao movimento Occupy) é devido ao simples fato de que a taxa de retorno sobre o capital (r) sempre excede a taxa de crescimento da renda (g). Isso, diz Piketty, é e sempre foi “a contradição central” do capital.

Mas esse tipo de regularidade estatística dificilmente alicerça uma explicação adequada, quanto mais uma lei. Então, que forças produzem e sustentam tal contradição? Piketty não diz. A lei é a lei e isso é tudo. Marx obviamente teria atribuído a existência de tal lei ao desequilíbrio de poder entre capital e trabalho. E essa explicação ainda está valendo. A queda constante da participação do trabalho na renda nacional, desde os anos 1970, é decorrente do declínio do poder político e econômico, à medida que o capital mobilizava tecnologia, desemprego, deslocalização de empresas e políticas antitrabalho (como as de Margaret Thatcher e Ronald Reagan) para destruir qualquer oposição.

Como Alan Budd, um conselheiro econômico de Margaret Thatcher, confessou num momento em que baixou a guarda: as políticas anti-inflação dos anos 1980 mostraram-se “uma maneira muito boa de aumentar o desemprego, e aumentar o desemprego era um modo extremamente desejável de reduzir a força das classes trabalhadoras… o que foi construído, em termos marxistas, como uma crise do capitalismo que recriava um exército de mão de obra de reserva, possibilitou que os capitalistas lucrassem mais do que nunca.” A disparidade entre a remuneração média dos trabalhadores e dos executivos-chefes era cerca de trinta para um em 1970. Hoje está bem acima de trezentos para um e, no caso do MacDonalds, cerca de 1200 para um.

Mas no segundo volume do Capital de Marx (que Piketty também não leu, como alegremente declara) Marx apontou que a tendência do capital de rebaixar os salários iria, em algum momento, restringir a capacidade do mercado de absorver os produtos do capital. Henry Ford reconheceu esse dilema há muito tempo, quando determinou o salário de cinco dólares para o dia de oito horas dos trabalhadores – para aumentar a demanda dos consumidores, disse.

Muitos pensavam que a falta de demanda efetiva estava na base da Grande Depressão da década de 1930. Isso inspirou políticas expansionistas keynesianas depois da Segunda Guerra Mundial e resultou em alguma redução das desigualdades de renda (nem tanto da riqueza), em meio a uma forte demanda que levou ao crescimento. Mas essa solução apoiava-se no relativo empoderamento do trabalho e na construção do “estado social” (termo de Piketty) financiado pela taxação progressiva. “Tudo dito”, escreve ele, “durante o período de 1932-1980, durante cerca de meio século, o imposto de renda federal mais alto, nos EUA, era em média 81%.” E isso de modo algum prejudicou o crescimento (outra parte das evidências de Piketty, que rebate os argumentos da direita).

Ali pelo final dos anos 1960, ficou claro para vários capitalistas que eles precisavam fazer alguma coisa a respeito do excessivo poder do trabalho. Por isso, Keynes foi excluído do panteão dos economistas respeitáveis, o pensamento de Milton Friedman deslocou-se para o lado da oferta, e teve início uma cruzada para estabilizar, se não para reduzir a tributação, desconstruir o Estado social e disciplinar as forças do trabalho. Depois de 1980, houve uma queda nas taxas mais altas de imposto e os ganhos do capital – uma grande fonte de renda dos ultra ricos – passaram a ser tributados por taxas muito menores nos EUA, aumentando enormemente o fluxo de capital do 1% do topo da pirâmide.

Contudo, o impacto no crescimento era desprezível, mostra Piketty. Tal “efeito cascata” de benefícios dos ricos ao restante da população (outra crença favorita da direita) não funcionou. Nada disso era ditado por leis matemáticas. Tudo era política. Mas então a roda deu uma volta completa, e a pergunta mais importante tornou-se: e cadê a demanda?

Piketty ignora essa questão. Os anos 1990 encobriram essa resposta com vasta expansão do crédito, inclusive estendendo o financiamento hipotecário aos mercados sub-prime. Mas o resultado foi uma bolha de ativos fadada a estourar, como aconteceu em 2007-2008, levando consigo o banco de investimento Lehman Brothers, juntamente com o sistema de crédito. Entretanto, enquanto tudo e todos se davam mal, depois de 2009 as taxas de lucro, e a consequente concentração de riqueza privada, recuperaram-se muito rapidamente. As taxas de lucro das empresas estão agora tão altas quanto sempre estiveram nos EUA. As empresas estão sentadas sobre grande quantidade de dinheiro e recusam-se a gastá-lo, porque as condições do mercado não estão robustas. A formulação da lei matemática de Piketty camufla, mais do que revela a respeito da classe política envolvida. Como notou Warren Buffett, “claro que há luta de classes, e é a minha classe, a dos ricos, que está lutando, e estamos vencendo.” Uma medida-chave de sua vitória são as crescentes disparidades da riqueza e renda do 1% do topo em relação a todo o resto da população.

Há, contudo, uma dificuldade central no argumento de Piketty. Ele repousa sobre uma definição equivocada de capital. Capital é um processo, não uma coisa. É um processo de circulação no qual o dinheiro é usado para fazer mais dinheiro, frequentemente – mas não exclusivamente – por meio da exploração da força de trabalho. Piketty define capital como o estoque de todos os ativos em mãos de particulares, empresas e governos que podem ser negociados no mercado – não importa se estão sendo usados ou não. Isso inclui terra, imóveis e direito de propriedade intelectual, assim como coleção de arte e de joias. Como determinar o valor de todas essas coisas é um problema técnico difícil, sem solução consensual. Para calcular uma taxa de retorno, r, significativa, temos de ter uma forma de avaliar o capital inicial. Não há como avaliá-lo independentemente do valor dos bens e serviços usados para produzi-lo, ou por quanto ele pode ser vendido no mercado.

Todo o pensamento econômico neoclássico (base do pensamento de Piketty) está fundado numa tautologia. A taxa de retorno do capital depende essencialmente da taxa de crescimento, porque o capital é avaliado pelo modo como produz, e não pelo que ocorreu em sua produção. Seu valor é fortemente influenciado por condições especulativas, e pode ser seriamente distorcido pela famosa “exuberância irracional” que Greenspan apontou como característica dos mercados imobiliário e de ações. Se subtrairmos habitação e imóveis – para não falar do valor das coleções de arte dos financiadores de hedge – a partir da definição de capital (e as razões para sua inclusão são bastante débeis), então a explicação de Piketty para o aumento das disparidades de riqueza e renda desabariam, embora sua descrição do estado das desigualdades passadas e presentes ainda ficassem em pé.

Dinheiro, terra, imóveis, fábricas e equipamentos que não estão sendo usados produtivamente não são capital. Se é alta a taxa de retorno sobre o capital que está sendo usado, é porque uma parte do capital foi retirado de circulação. Restringir a oferta de capital para novos investimentos (fenômeno que estamos testemunhando agora) garante uma alta taxa de retorno sobre o capital que está em circulação. A criação dessa escassez artificial não é só o que fazem as companhias de petróleo, para garantir a sua elevada taxa de lucro: é o que todo o capital faz quando tem oportunidade. É o que sustenta a tendência de a taxa de retorno sobre o capital (não importa como é definido e medido) exceder sempre a taxa de crescimento da renda. Esta é a forma como o capital garante sua própria reprodução, não importa quão desconfortáveis sejam as consequências para o resto de nós. E é assim que a classe capitalista vive.

Há muitas outras coisas valiosas nos dados coletados por Piketty. Mas, sua explicação de porque as tendências à desigualdade e à oligarquia surgem está seriamente comprometida. Suas propostas de solução para a desigualdade são ingênuas, se não utópicas. E ele certamente não produziu um modelo de trabalho para o capital do século 21. Para isso, ainda precisamos de Marx ou de seus equivalentes para os dias atuais.

http://outraspalavras.net/destaques/david-harvey-leia-piketty-mas-nao-se-esqueca-de-marx/ 

MARCO REGULATÓRIO DAS ORGANIZAÇÕES DA SOCIEDADE CIVIL E O CONTROLE DA CORRUPÇÃO – O QUE ESTÁ POR TRÁS DO DESCASO DO GOVERNO?

http://www.abong.org.br/final/download/notaosc.pdf

 

Ver lista de organizações e redes signatárias no site da Abong (www.abong.org.br)

 

Para subscrever encaminhe email com o nome e sigla (se houver) da entidade para: observatorio@abong.org.br

‘A ideia de felicidade ocidental, baseada no individualismo, falhou’



Roman Krznaric (Foto: Kate Raworth)


Fundador da The School of Life vem ao País dar palestras sobre compaixão e trabalho. Para o filósofo australiano, colocar-se no lugar do outro é a verdadeira revolução.

Há 20 anos, Roman Krznaric se inscreveu para um curso de culinária na Bahia; mas, como não conseguiu uma bolsa de estudos, declinou a viagem. Hoje, o filósofo australiano, um dos fundadores da The School of Life, na Inglaterra, finalmente conhecerá o Brasil. Abriu uma exceção para viajar de avião – ele se preocupa com as emissões de carbono – e virá ao País para uma palestra sobre trabalho, dia 22, no Teatro Augusta.

Escritor do best seller Como Encontrar o Trabalho da Sua Vida, o filósofo continua interessado em culinária, mas se dedica a incentivar o que chama de “questionamentos sobre a vida”. E a vida laboral, segundo o escritor, é uma das questões que causam mais insatisfação e inquietação no mundo contemporâneo. “Hoje, pessoas de todas as classes sociais começam a enxergar o trabalho como algo para além da sobrevivência. É uma ocupação que pode fazer você se sentir preenchido”, conta. A saída para a insatisfação, explica, tem algumas alternativas: aplicar seus valores pessoais no trabalho; procurar um emprego que faça diferença no mundo; e usar seus talentos e habilidades; entre outras. “Uma das maiores razões de satisfação no trabalho não é dinheiro, mas autonomia”, diz.

Além de aulas e conferências pelo mundo, o australiano toca, paralelamente, um projeto definido por ele como “a grande ambição de sua vida”: a criação de um Museu da Empatia. “Trata-se de um lugar onde você poderá entrar e conversar com pessoas que não conhece. Assim como emprestamos livros de uma biblioteca, será possível emprestar pessoas para uma conversa”, explica. O projeto não é de todo utópico. Segundo o filósofo, depois de um vídeo explicando seu conceito de empatia, com 500 mil visualizações, sua caixa de e-mail recebe, pelo menos, uma mensagem por dia de pessoas do mundo inteiro se propondo a ajudar na criação do museu.

É por meio dessa troca e da disseminação desse conceito de empatia que o filósofo acredita ser possível fazer uma revolução: “As pessoas acham que a paz e as revoluções são construções de acordos políticos. Mas acredito que é possível que isso seja feito nas raízes das relações humanas. Desmontando ignorâncias e preconceitos”, diz.

Veja os melhores momentos da entrevista em: 

http://blogs.estadao.com.br/sonia-racy/a-ideia-de-felicidade-ocidental-baseada-no-individualismo-falhou/

Fonte: Estadão, 16 set. 2013  

Novo Código Florestal como um case

 

O atual debate sobre o novo Código Florestal é exemplar para entendermos o funcionamento do Congresso Brasileiro e o posicionamento da sociedade civil e demais atores sociais envolvidos na tomada de decisões a respeito. O quadro abaixo foi elaborado com base no trabalho de organizações da sociedade civil que atuam com meio ambiente, especialmente SOS Mata Atlântica e WWF. Excelente exemplo de que, para se fazer advocacy, é fundamental estudar o contexto histórico, a estrutura jurídico-política e estar consciente de que todos têm interesses e isso não é problema, ao contrário. O problema é se achar ‘neutro’, especialmente quando não se tem condições de, literalmente, tomar partido, ou seja, ter argumentos que referendem suas posições enquanto ator social. Um exercício difícil, mas necessário, é se colocar ao mesmo tempo ‘de dentro e de fora’. É uma maneira de se perceber que toda causa pode ser boa, mas não é inquestionável e que os olhares ‘de fora’ são constantes. Acompanhar os debates nos jornais nos ajuda a reforçar o que sabemos, quando é o caso, mas, principalmente, traz vários ensinamentos. Nesse momento, através da imprensa, temos condições de olhar ‘de fora’, apesar de estarmos totalmente dentro, na medida em que as decisões que dizem respeito ao país, em qualquer área, nos afetam.


 Fonte: UOL Notícias.Ciência

 

 

Em memória de Herbert Daniel

Herbert Daniel foi guerrilheiro, exilado político pela ditadura e fundador do primeiro grupo de pessoas vivendo com HIV e Aids da América Latina. Quando escrevi minha tese de doutorado, dediquei um capítulo para destacar as trajetórias de três pessoas públicas que tiveram grande importância para a visibilidade e a resposta à epidemia no Brasil: Herbert de Souza (Betinho), Herbert Daniel e Cazuza. O capítulo foi publicado sob o título "Figuras Emblemáticas da Responsabilidade", no periódico Lugar Primeiro, n.5, da Pós-Graduação de Sociologia e Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Infelizmente, não está disponível online, mas os interessados podem solicitar o pdf através deste blog.

Em memória de Herbert Daniel, após 20 anos de sua morte, a ABIA divulgou hoje um Informe.

 

Zygmunt Bauman - Fronteiras do Pensamento (2011)

Poucos têm a lucidez e a jovialidade de Bauman. Vale a pena assistir sua entrevista.


A Fortaleza do Outubro Rosa

 

 

*Os Bonecos Gigantes são tradição no Carnaval pernambucano, mas já foram incorporados pelos movimentos sociais, especialmente no Nordeste. Eles trazem um apelo cultural familiar à população e facilitam a transmissão de informações com humor. “Sr.SUS” e “Dona Saúde” são os nomes dos Bonecos utilizados nas intervenções junto às comunidades cearenses.

 

            No último mês de outubro tive a oportunidade de acompanhar o final dos trabalhos organizados por entidades que atuam com câncer de mama em Fortaleza, Ceará, no Nordeste do Brasil. Entre elas, quatro associações que têm sido um exemplo nas relações de parceria. Associação Rosa Viva, Associação dos Amigos do Crio (Assocrio), Grupo Amar e Toque de Vida vêm trabalhando de forma articulada e estão iniciando um projeto com apoio financeiro da American Cancer Society (ACS) – “Vitoriosas em Ação” –, no escopo do fortalecimento da Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama).  

A iluminação de monumentos e as fotos de mulheres de camisetas rosa nos jornais, já são identificadas pela população brasileira. O que ainda se conhece pouco é a preparação prévia e a extensão do trabalho e das articulações realizadas para que se chegue aos acontecimentos que se tornam notícias.

A programação do Movimento Outubro Rosa – nome atribuído pela coalizão cearense – foi bastante ampla, perpassando eventos praticamente diários. Desde 2009, esse Movimento é organizado pelas associações mencionadas e, no ano de 2011, contou ainda com a participação do Instituto do Câncer do Ceará (ICC).

A Programação Oficial foi pré-lançada em setembro, tendo ao menos nove instituições de saúde como públicos-alvo, desde o Conselho Municipal de Saúde de Fortaleza até os serviços de oncologia, públicos e privados, envolvendo públicos e instituições relevantes no enfrentamento do câncer de mama no Ceará. Também foram realizadas audiências públicas na Câmara de Vereadores de Fortaleza e na Assembleia Legislativa do Ceará, que possibilitaram a participação de uma das organizadoras, apresentando a situação do câncer de mama e a importância desse Movimento. 

As organizações elaboraram ainda uma Programação Paralela com intervenções corpo-a-corpo (palestras, panfletagens, blitz e atrações artísticas e culturais) para sensibilizar a população e veicular sua mensagem de forma mais direta: a detecção precoce do câncer de mama. Grande parte dessa agenda está em sintonia com as atividades do projeto “Vitoriosas em Ação”. Também foi realizada uma caravana para o interior do estado – ‘Rota Kombi Rosa’, além de atividades para a comunidade de pescadores, que por si só mereceria um relato específico. 

 

*A Caminhada do Outubro Rosa 2011 contou com o apoio do Instituto Avon. Reuniu em torno de cinco mil pessoas, majoritariamente mulheres – várias com câncer de mama – sob uma temperatura de 32º graus. Além da presença de municípios do interior, destaca-se a Fundação Maria Carvalho Santos (Teresina), demonstrando solidariedade e sintonia no trabalho desenvolvido no Nordeste. 

          O Ceará é o quarto maior estado do Nordeste, contando com 184 municípios. A população de 8.448.055 hab. corresponde a 15,91% da população nordestina e 4,43% da população brasileira. A concentração populacional está na capital, que agrega 28,97% da população do estado. De acordo com o IBGE, 19% da população cearense é analfabeta. Um desafio à criatividade nas ações educativas, especialmente quando dirigidas à população de baixa renda e aos municípios do interior do estado.  

No que se refere à situação do câncer de mama, a partir das instituições conveniadas com o Sistema Único de Saúde (SUS), os dados da Secretaria Municipal de Saúde de Fortaleza registram a realização de 41.640 mamografia, em 2010, e 37.007, entre janeiro e outubro de 2011 (3.304 a mais do que a quantidade no mesmo período de 2010). Esse aumento provavelmente reflete, por um lado, a melhoria na qualidade do registro de dados, por outro, a maior demanda das mulheres, em decorrência de atividades informativas e educativas desenvolvidas pelas organizações.

 

 

*A jangada é o símbolo cearense por excelência. Cantadas em verso e prosa, as jangadas possibilitam a atividade da pesca e, mais recentemente, até passeios turísticos.

         

Estive presente somente nos dois penúltimos dias das programações do Movimento Outubro Rosa – Fortaleza, mas foi possível observar a dinâmica, o envolvimento e a recepção da população.

No dia 29 de outubro, foi organizada uma atividade na comunidade de pescadores do Mucuripe, local conhecido pelo mercado de peixes e ancoradouro das jangadas que chegam trazendo a pesca diária de peixes e frutos do mar.

A atividade foi realizada em uma pequena igreja – Igreja de São Pedro dos Pescadores, no Mucuripe. Note-se que na programação paralela do Movimento estava inserida a iluminação e a panfletagem em igrejas, nos dias dos santos padroeiros comemorados em outubro. Uma atenção importante à cultura local e a espaços que aglomeram pessoas, especialmente mulheres.

Na Igreja de São Pedro dos Pescadores, a ação foi dirigida, inclusive porque paralelamente estava-se dialogando com os pescadores que aceitaram navegar em suas jangadas, acompanhando a Caminhada do Outubro Rosa no dia seguinte. As atividades incluíram palestras de duas mastologistas, com informações precisas e veiculadas de forma extremamente simples para as ouvintes, muitas delas mulheres de pescadores e/ou católicas praticantes na referida igreja. Também foram feitas outras apresentações, contando com os Bonecos Gigantes e uma confraternização ao final. Após as palestras, as mulheres que atendiam aos pré-requisitos estabelecidos, receberam vales-mamografia que lhes dava o direito de realizar a mamografia gratuitamente, no período de um mês, em dois locais de referência em Fortaleza: o Centro Integrado de Oncologia (Crio) e o Instituto do Câncer do Ceará (ICC), que assumiram o compromisso de acompanhar as mulheres, de acordo com os resultados. A mesma dinâmica foi repetida após a Caminhada. No geral, foram distribuídos em torno de 200 vales-mamografia.

Na comunidade de pescadores, um aprendizado. Sabedoria. Palavra às vezes esquecida ou associada ao saber letrado. Ledo engano. A sabedoria é a capacidade de discernir, compreender e passar adiante seu conhecimento; característica de um líder nato. Foi o que presenciei no diálogo entre Raimundo e Valéria, cada um no seu espaço, mas ambos, líderes natos. Ele organizou os 28 pescadores que vestiram as camisetas rosa e estiveram presentes nas sete jangadas, acompanhando a Caminhada pelo mar. Ela, uma liderança do Movimento, que acertou todos os detalhes referentes às pinturas das velas das jangadas, ajuda de custo para os pescadores, horários, fotos, etc., mas principalmente, através de Raimundo, conseguiu sensibilizar os pescadores para o sentido do evento. Ao final da Caminhada era nítida a sensação de terem feito parte da mobilização, especialmente com a importante incumbência de apresentarem o símbolo cearense: a jangada. E, claro, também foi negociado um trabalho posterior direcionado aos homens, informando sobre o câncer de próstata, ainda alvo de preconceito por vários deles.

Por fim, além do envolvimento profissional, do aprendizado constante com as mulheres que estão vivendo com câncer de mama e com diferentes grupos e regiões brasileiras, é sempre bom estar em Fortaleza. Uma das capitais turísticas mais procuradas no Nordeste, que resiste na preservação da natureza, com belas praias, pesca, culinária e frutas tipicamente brasileiras como o caju. Muita saúde a todas as cearenses para que possam desfrutar dos prazeres da vida cotidiana!


Referências


CEARÁ EM MAPAS 2010. Secretaria de Planejamento e Gestão do Governo do Estado do Ceará  

 

IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística 

 

Movimento Outubro Rosa 2011 – Programação Oficial


Outubro Rosa – Fortaleza, 2011


SMS – Secretaria Municipal de Saúde de Fortaleza [Saúde da Mulher]

Cristina Câmara - Consultora em Advocacy da ACS no Brasil  

Fotos de Juliano Moura 

 


*Publicado originalmente no blog da American Cancer Society, em 31 out 2011

 

 

 

“Janaína Dutra – Uma dama de ferro”

 


            Assisti ao documentário “Janaína Dutra – Uma dama de ferro”, de Vagner de Almeida, duas vezes, mas serão necessárias muitas outras para poder apreender a riqueza de detalhes do documentário em si e da trajetória de Janaína. 

            Sobre o documentário, estilo que gosto muito, Vagner conseguiu localizar as personagens precisas para re-construir e re-contar a história de Janaína, em suas múltiplas facetas. Sua trajetória ativista é conhecida por muitos, mas relacioná-la a sua trajetória de vida oferece à audiência uma grata surpresa. Gostaria de comentar um pouco esses dois aspectos, mas antes é fundamental destacar a interessante opção por mesclar as narrativas históricas com as entrevistas e o depoimento da própria Janaína. A pluralidade de lugares referenciais das pessoas entrevistadas, falando sobre momentos e aspectos diferentes, e os diversos recursos utilizados enriquecem o documentário.

            Sobre a trajetória de ativista, que obviamente não se dissocia de sua trajetória pessoal, mas, ao contrário, é parte dela, os relatos dos companheiros de diversas frentes demonstram a capacidade de articulação de Janaína, sua aceitação, respeito e bem querer por parte dos que tiveram o privilégio de atuar com ela. Na luta pelos direitos humanos, na defesa das pessoas soropositivas e no entendimento de que a prostituição pode ser uma opção, mas na maioria das vezes não o é para as travestis, que carregam múltiplas inserções sociais negativas, cotidianamente, dificultando suas vidas sob todos os aspectos.

            Sobre sua trajetória de vida, é bonito e gratificante saber que uma família simples, de São Francisco de Canindé – cidade cearense de tradição católica, na qual abundam os devotos de São Francisco –, mantém a coerência entre sua religião e o respeito às diferenças. Isto é possível notar nos relatos dos familiares quando falam sobre Janaína, mas também nos relatos sobre ela e nos seus próprios. Um exemplo está presente na maneira como Janaína conseguiu relacionar sua identidade ‘Janaína Dutra’, duramente conquistada, a seu nome familiar ‘Jaime’ ou ‘Jaiminho’. Não se percebe uma polaridade, ao contrário, parece haver uma agregação de espaços e valores quanto à masculinidade e à feminilidade. Janaína foi inclusive uma referência paterna para seus sobrinhos. Quando alguém da família certa vez lhe perguntou sobre seu nome, ela respondeu: “Me chame de qualquer jeito.” Ela soube ser respeitosa com suas irmãs, por exemplo, e talvez por isto mesmo seja tão respeitada e lembrada com muito carinho e saudade por todos os familiares, amigos e companheiros de luta. E que amigos...

            A relação com os amigos denota também dificuldades e desafios, não para aceitar Janaína, mas para entendê-la e respeitá-la, o que chega a ser comovente. Destaco apenas a narrativa de Manoelzinho, porque não seria possível aqui comentar a enorme riqueza de todas as outras. Chama a atenção sua grandeza e discrição quando ele diz ter percebido os seios de Janaína, mas não fez comentário algum, porque comentar soava quase como por em evidência algo apartado de seu ser. E, fosse como fosse, sua amiga era inteira para ele, independente das opções que fizesse sobre seu corpo.  

            A mãe de Janaína é um capítulo à parte, mas duas palavras me vêm à cabeça para tentar descrevê-la: Dignidade e lucidez. Segundo uma das irmãs: “Sempre aceitou o Jaime do jeito que ele era”. Por sua vez, não poderia deixar de destacar as palavras de Janaína que, a meu ver, compõem a mescla de sua trajetória: “O apoio familiar te empodera na sociedade”.

            Como dito inicialmente, há muito mais a ser extraído nas informações e lições que o documentário retrata, por isso é preciso assisti-lo mais de uma vez.

Por último, mas não menos importante, gostaria de mencionar que o documentário de Vagner de Almeida consegue retratar uma beleza agreste, ao mesmo tempo rigorosa e simples. Beleza explícita na fotografia logo no início, mas subjacente ao longo do filme. As músicas, os ritmos, vão se adequando aos diferentes cenários. Enfim, é lindo porque é simples! Além da enorme contribuição por registrar e tornar pública esta história. Parabéns!

Cristina Câmara

SP, 17 ago 2011

    

Produção: Grupo de Resistência Asa Branca (GRAB)

 

Mais informações sobre o filme nos sites:
www.vagnerdealmeida.com
www.grab.org.br

Mapeamento político da saúde no Brasil: Um recurso para ONGs atuando em câncer de mama

 

Livro elaborado com o objetivo de fortalecer a atuação de associações de câncer de mama reunidas na FEMAMA. Trata-se de um guia de advocacy que busca identificar a dinâmica do Sistema Único de Saúde, o que é decidido e como, assim como quais os canais de participação e interlocução com o poder público (Executivo, Legislativo e Judiciário), além de contribuir para o acesso dos cidadãos a informações e processos políticos. Nesse ‘Mapeamento’, o foco são as estruturas de poder e os tomadores de decisão sobre os quais se pretende incidir politicamente, sendo também de interesse para outros movimentos e atores sociais. O livro foi publicado com apoio da American Cancer Society.

O Livro também está disponível na Biblioteca Virtual de Saúde Pública da ENSP-Fiocruz (Bibensp)

 

 

 

Sanguessugas e vampiros: puniram quem denunciou

 

 

 

Sanguessugas e vampiros: puniram quem denunciou

  

 *Lígia Bahia

 

A sangria das sanguessugas e vampiros, descobertos em 2004 e 2006, anemiou recursos do Ministério da Saúde durante doze anos. As histórias deixaram o Brasil de pé atrás e continuam nos assombrando. Se, antes, nove e meio entre dez brasileiros desconfiavam que a administração da saúde pública não é flor para se cheirar, os chupadores selaram o diagnóstico. Como os escândalos de corrupção não cessaram - mas há indícios de migração de tais criaturas no interior do Planalto e para as unidades federadas e municípios -, fica-se sem saber de que tipo são os espécimes que andam atacando por aí. A indefinição sobre os responsáveis pelos assaltos sistemáticos e duradouros ao erário público estimula as suspeitas sobre o reagrupamento e mudança das bases logísticas das quadrilhas.

 

Uma pequena volta no tempo nos fará lembrar que certas atividades ilícitas abrangeram todo o ciclo de atividades de aquisição de bens e insumos pelo Ministério da Saúde. O traço comum dos escândalos é o superfaturamento. Para controlar os preços, emendas parlamentares, licitação e aquisição de ambulâncias, foi necessário arregimentar parceiros no âmbito empresarial, em diversas esferas administrativas, e estabelecer pontes entre o Legislativo e Executivo. Só a expressão crime organizado descreve adequadamente essa rede de poder, que se manteve ao longo de diversas gestões ministeriais e renovou seus adeptos no início do primeiro mandato do presidente Lula.

 

Os vampiros, que sugaram pelo menos R$27 milhões, foram revelados por investigações da Polícia Federal e denúncias do então secretário executivo do Ministério da Saúde, Gastão Wagner Campos. Duas empresas fornecedoras, técnicos e ocupantes de cargos de confiança do Ministério da Saúde burlaram, desde 1997, os preços de hemoderivados (utilizados para tratamento de hemofílicos). As sanguessugas, também pressentidas inicialmente por técnicos da saúde, causaram um prejuízo de cerca de R$15,5 a R$21 milhões em 2006. A compra de ambulâncias por preços mais elevados em 600 cidades estabeleceu relações de contiguidade com o pagamento de propinas e apoio material às campanhas de vários parlamentares do Congresso Nacional e com o mensalão.

 

Integrantes de ambas as quadrilhas foram presos, outros processados por improbidade e instados a devolver os recursos indevidamente apropriados. Logo, a maioria constituiu caros advogados de defesa que demonstraram a inadequação de punição a seus clientes inocentes, somente inadvertidos ou colaborativos. Embora as exigências de restituição do dinheiro sejam praticamente inalcançáveis, houve algum prejuízo para os acusados. Uns não se reelegeram nas eleições de 2008, outros tiveram direitos, como o da disponibilidade de bens, suspensos e um ex-deputado, condenado a pagar a pena com trabalhos comunitários, recorreu.

 

Paradoxalmente, quem foi levado de roldão por essa maré investigativa porque desempenhou cargos executivos no Ministério da Saúde e ainda não foi inocentado está comendo o pão que o diabo amassou. O professor titular da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, Gastão Wagner, o mesmo que ativamente contribuiu para acabar com as práticas de malversação de fundos públicos, é campeão de processos.

 

Permaneceu menos de dois anos como secretário executivo e acumula cinco ações civis públicas e uma criminal. Enquanto a dúvida não se esclarece, seus bens - uma casa na qual ele reside com sua família, um terreno pequeno e um carro velho - estão indisponíveis e por três vezes ficou impedido de retirar do banco seu salário de professor. Como é imensamente amável e amado por muitos, professor-pesquisador e cidadão exemplar, a incoerência entre o que está no papel e na vida reteve máculas em sua biografia. No entanto, constatar que a Justiça põe Gastão Wagner no mesmo saco de declarados organizadores do crime deixa uma pontinha de inquietação. Estaria se supondo que as ações dos vampiros e sanguessugas foram desorganizadas? Os rendimentos de um professor universitário são públicos e notórios. O patrimônio do professor Gastão é ínfimo. Qual seria então a utilidade de propor uma medida voltada para impedir o uso desses exíguos bens? De nada vale ser ético até o último fio do cabelo? Basta a assinatura de um documento formal para ser considerado criminoso, mesmo que não haja elo com o que se praticou?

 

Essas desmedidas tecem mais uma cortina de fumaça, enquanto vampiros e sanguessugas se disseminam ou sofrem mutações. A divisão de cargos técnicos por partidos políticos e o uso da liberação de emendas parlamentares, que concentram parcela considerável de investimentos, como moeda de troca para compor maiorias congressuais levaram a saúde para a berlinda outras vezes em função de contratos irregulares da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e por suspeição de remontagem do cartel de preços. Esses contínuos desfalques setorizados, entretanto, tornaram-se até acanhados perante a magnitude de cifras divulgadas recentemente. A hora-aula de um professor com doutorado, quando remunerada e necessariamente conhecida pela Receita Federal, fica em torno de R$200. A palestra ou a consultoria de um importante ocupante de cargo público não saiu por menos de valores compostos por seis, sete, oito dígitos, pagos à vista. Tudo será retribuído, a prazo com dividendos, mediante políticas públicas focadas no aumento das taxas de retorno de empresários privados. Se as acusações a quem não está implicado em qualquer falcatrua continuarem atulhando processos, ocupando tempo e energia de nossas instituições judiciais, o coeficiente de entropia no monitoramento das ações governamentais não será reduzido nas proporções necessárias à compatibilização das práticas administrativas e partidárias ao efetivo exercício da democracia.

 

* Lígia Bahia, vice-presidente da ABRASCO e diretora do Cebes, professora de economia da saúde no Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IESC/UFRJ). Artigo publicado no Jornal O Globo, em 30/05/2011.


 

Jornal O Globo, 30.05.11

Salve o Mestre, José Saramago (1922-2010)!!!

 

"Há coisas que nunca se poderão explicar por palavras."

José Saramago

 

Poema à boca fechada

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

José Saramago

 

 

 

 

Para quem não assistiu, vale a pena ver a obra. Ele se emocionou!

 

 

Fundação José Saramago: www.josesaramago.org 

Impresiones con respecto al Foro 2009

 

             

 

 

Estuve en Lima para el “V Foro Latinoamericano y del Caribe en VIH/Sida e ITS”, el Foro 2009, que tuvo lugar entre el 21 y el 23 de noviembre del corriente año. Mi participación resultó del trabajo realizado el año pasado para la oficina de la Cooperación Técnica Alemana (GTZ) y el Centro Internacional de Cooperación Técnica en VIH/Sida (CICT), presentado en el Seminario de monitoreo y evaluación organizado por Gapa-Bahia en agosto de este año y que ahora Uds. pueden tener acceso a través de la publicación online: “VIH-Sida en América Latina desde la perspectiva social.”

            Con respecto al Foro 2009, los eventos en paralelo me parecen haber tenido una mayor expresión que aquellos previstos en la programación. Además, la organización de la estructura del evento no ha sido muy buena y algunas veces no fue posible llegar a tiempo para las presentaciones debido al hecho de que las salas no siempre correspondían con aquellas descriptas en el programa. Del mismo modo, participé de algunas mesas redondas que no estaban descriptas en el mismo. Sin embargo, las charlas con los colegas ayudaban a la identificación de los sitios de debates.  

            Un primer punto que me gustaría destacar fue la realización del "1er Encuentro Latinoamericano y del Caribe de Adolescentes Frente al VIH", anteriormente al Foro 2009. En este Encuentro participaron aproximadamente 90 personas entre adolescentes y sus respectivos padres o cuidadores legales, provenientes de 11 países de la región: Argentina, Bolivia, Brasil, Colombia, Costa Rica, Cuba, Guatemala, México, Perú, República Dominicana y Uruguay. Un joven representante de ellos habló en la apertura del evento y registró sus demandas: acceso con calidad (libre y gratuito) a la salud, medicamentos que permitan la continuidad y la adherencia al tratamiento, educación sexual, así como la reducción del estigma y la discriminación y mayor protección debido a la situación de vulnerabilidad en que se encuentran. Las y los adolescentes hablaron sobre sus derechos, intercambiaron experiencias y formularon propuestas visando las estrategias nacionales para enfrentar el VIH/Sida. También hablaron sobre el derecho a la confidencialidad, que los niños con VIH puedan permanecer al lado de sus padres y que los huérfanos reciban protección y cuidados adecuados.  

            Aún en la apertura del evento, también es importante registrar la manifestación de los activistas que demandaron del gobierno peruano que no apelara a la decisión del Décimo Sexto Juzgado Especializado Civil de Lima, que declaró fundada la demanda presentada por Carmen Guevara, madre de un niño que en el 2004 adquirió el VIH en una transfusión de sangre. Ya a la llegada al Parque de las Aguas se veía a la policía intentar impedir la manifestación, pero las voces se hicieron oír durante las presentaciones culturales y la participación de las autoridades en la apertura hasta que la señora Guevara pudiera pronunciarse. El resultado fue que en la primera semana de diciembre los periódicos informaron que el gobierno peruano anunció el valor más alto que se ha pagado en el país, 800 mil soles (alrededor de 286 mil dolares), como indemnización por el contagio del VIH en hospitales públicos. Aunque el Ministro de Salud haya registrado la atención del gobierno peruano con respecto al tema del VIH/Sida, es evidente que la presión social y la fecha del 1º. de diciembre llevaron a tal decisión.

            Las plenarias del Foro 2009 no ofrecieron novedades para quienes siguen el tema del VIH/Sida. Los espacios de debates fueron las mesas temáticas y los comentarios más animados destacaban los temas de los derechos humanos, la gestión y la respuesta social y la pertinencía del trabajo en red. Este último tal vez haya sido el más comentado entre los stands donde transitaban los participantes. Hablando de esto, en este sitio la visibilidad de las transgéneros y de las prostitutas fue la más expresiva, desde la divulgación de videos hasta su forma particular de atraer al público con su visual.

            Para aquellos que estén interesados, las conclusiones finales del “V Foro Latinoamericano y del Caribe en VIH/Sida e ITS” y del “IV Foro Comunitario Latinoamericano y del Caribe en VIH/Sida e ITS” están disponibles en el siguiente enlace: http://www.forovih2009.org.pe/espanol/Default.asp

 

 

 * Postado en el blog "Transversalizando VIH-Sida: Una construcción colectiva entre las contrapartes de PPM en América Latina y el Caribe", en el 10 de diciembre de 2009.

 

 

 

 

 

A era (e o controle) da informação

 

Que estamos vivendo a era da informação, nenhuma novidade. Inúmeros autores têm abordado o tema, sendo leitura obrigatória a trilogia de Manuel Castells. Engana-se quem pensa que as novas teconologias, as redes online e o imediatismo da troca de informações estejam diretamente ligados ao que tantas vezes denominamos de democratização da informação. A avalanche de informações, em todos os idiomas, impossibilita a apreensão total e dificulta a seleção. Por sua vez, a noção de tempo, os flashs instantâneos e a maneira como passamos a escrever, cada vez mais, precisa ser concisa, objetiva e direta. Os jornalistas certamente são os mais acostumados com esta dinâmica. Aliás, quando conheci o Twitter achei que fosse uma ferramenta para jornalistas e, de fato, o que mais me agrada é poder receber notícias de inúmeros veículos de todo o mundo em fração de segundos.

                            

Entretanto, o que significa esta velocidade na forma de produzir informações para os profissionais que se valem de outro tipo de escrita, nem sempre com a possibilidade de objetivar fatos em tempo recorde? O que muda nas apresentações de relatórios, participações em eventos e congressos etc? Não me refiro às tecnologias, mas à produção de conhecimento. No cenário atual, como produzí-lo? Como apresentá-lo? E talvez principalmente como ler o que nos é apresentado?

Cada vez mais, recebemos resumos ou ‘relatórios’ de trabalho no formato Power Point. Certamente mais rápido para quem prepara e que, evidentemente, deve ter as capacidades de concisão e clareza. Mas, inegavelmente, faz-se escolhas sobre os pontos que serão apresentados, temas abertos ao debate (ou não), conclusões etc. O leitor deverá estar se perguntando: Afinal, com os relatórios volumosos (ou no limite para serem lidos) também não acontecia o mesmo? Possivelmente, mas de fato o que presenciamos no momento, na era da informação, é a necessidade de reaprendermos a escrever, a apresentarmo-nos na esfera pública, a vendermos um projeto, a lermos os resultados de pesquisas etc. O não saber como escrever implica em limites para ler e quem detém o veículo e a forma adequada, inegavelmente controla a informação. Novos tempos, novos ritmos, novos rumos.

Parafraseando o poeta: “Sentir? Sinta quem lê!” (se puder).

 

 

 

 

ISTO

Fernando Pessoa

 

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir?
Sinta quem lê!

 

 

O antropólogo Claude Lévi-Strauss, aquele que “detestou a baía de Guanabara...” fez 100 anos

O francês Claude Lévi-Strauss é tido como um dos maiores intelectuais vivos, influenciando inúmeras áreas disciplinares e inspirando debates até hoje. No dia 28 de novembro de 2008, Lévi-Strauss fez 100 anos. Um número pleno, cheio, redondo e impensável para muitos, ainda mais para alguém lúcido e atual, como frisaram os jornais do dia.





Para quem estuda as ciências sociais, Lévi-Strauss é leitura obrigatória. Considerado a referência do estruturalismo francês na antropologia, trouxe contribuições marcantes com sua teoria das estruturas elementares do parentesco, os processos mentais do conhecimento e a estrutura dos mitos. Não há quem tenha passado sem “O feiticeiro e sua magia”: “Não há, pois, razão de duvidar da eficácia de certas práticas mágicas. Mas, vê-se, ao mesmo tempo, que a eficácia da magia implica na crença da magia...”




             







Também é impossível esquecer sua contribuição para o tema da diversidade cultural e a crítica ao etnocentrismo em “Raça e História”, escrito para Unesco nos anos 50.


A TV francesa registrou os 100 anos de Lévi-Strauss com um programa intitulado: Qui est Lévi-Strauss

 


 

 

Lévi-Strauss também não passa despercebido do grande público. Primeiro, entre nós brasileiros, por seu livro “Tristes Trópicos”, que escreveu a partir de sua experiência no Mato Grosso e na Amazônia quando foi professor visitante da Universidade de São Paulo, nos anos 30. E, é claro, por ter sido popularizado pelo “Estrangeiro” de Caetano Veloso.








O Musée du Quai Branly, em Paris, dedicou um dia à Claude Lévi-Strauss e lançou uma publicação em sua homenagem. Aliás, merecidas homenagens não faltaram.

[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
Meu Perfil
BRASIL, Mulher, Portuguese, English, Livros, Cinema e vídeo
Outro - criscamara6