Que estamos vivendo a era da informação, nenhuma novidade. Inúmeros autores têm abordado o tema, sendo leitura obrigatória a trilogia de Manuel Castells. Engana-se quem pensa que as novas teconologias, as redes online e o imediatismo da troca de informações estejam diretamente ligados ao que tantas vezes denominamos de democratização da informação. A avalanche de informações, em todos os idiomas, impossibilita a apreensão total e dificulta a seleção. Por sua vez, a noção de tempo, os flashs instantâneos e a maneira como passamos a escrever, cada vez mais, precisa ser concisa, objetiva e direta. Os jornalistas certamente são os mais acostumados com esta dinâmica. Aliás, quando conheci o Twitter achei que fosse uma ferramenta para jornalistas e, de fato, o que mais me agrada é poder receber notícias de inúmeros veículos de todo o mundo em fração de segundos.

Entretanto, o que significa esta velocidade na forma de produzir informações para os profissionais que se valem de outro tipo de escrita, nem sempre com a possibilidade de objetivar fatos em tempo recorde? O que muda nas apresentações de relatórios, participações em eventos e congressos etc? Não me refiro às tecnologias, mas à produção de conhecimento. No cenário atual, como produzí-lo? Como apresentá-lo? E talvez principalmente como ler o que nos é apresentado? Cada vez mais, recebemos resumos ou ‘relatórios’ de trabalho no formato Power Point. Certamente mais rápido para quem prepara e que, evidentemente, deve ter as capacidades de concisão e clareza. Mas, inegavelmente, faz-se escolhas sobre os pontos que serão apresentados, temas abertos ao debate (ou não), conclusões etc. O leitor deverá estar se perguntando: Afinal, com os relatórios volumosos (ou no limite para serem lidos) também não acontecia o mesmo? Possivelmente, mas de fato o que presenciamos no momento, na era da informação, é a necessidade de reaprendermos a escrever, a apresentarmo-nos na esfera pública, a vendermos um projeto, a lermos os resultados de pesquisas etc. O não saber como escrever implica em limites para ler e quem detém o veículo e a forma adequada, inegavelmente controla a informação. Novos tempos, novos ritmos, novos rumos. Parafraseando o poeta: “Sentir? Sinta quem lê!” (se puder). ISTO Fernando Pessoa Dizem que finjo ou minto Tudo o que sonho ou passo, Por isso escrevo em meio
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

Para quem estuda as ciências sociais, Lévi-Strauss é leitura obrigatória. Considerado a referência do estruturalismo francês na antropologia, trouxe contribuições marcantes com sua teoria das estruturas elementares do parentesco, os processos mentais do conhecimento e a estrutura dos mitos. Não há quem tenha passado sem “O feiticeiro e sua magia”: “Não há, pois, razão de duvidar da eficácia de certas práticas mágicas. Mas, vê-se, ao mesmo tempo, que a eficácia da magia implica na crença da magia...”

Também é impossível esquecer sua contribuição para o tema da diversidade cultural e a crítica ao etnocentrismo em “Raça e História”, escrito para Unesco nos anos 50.
A TV francesa registrou os 100 anos de Lévi-Strauss com um programa intitulado: Qui est Lévi-Strauss
Lévi-Strauss também não passa despercebido do grande público. Primeiro, entre nós brasileiros, por seu livro “Tristes Trópicos”, que escreveu a partir de sua experiência no Mato Grosso e na Amazônia quando foi professor visitante da Universidade de São Paulo, nos anos 30. E, é claro, por ter sido popularizado pelo “Estrangeiro” de Caetano Veloso.
O Musée du Quai Branly, em Paris, dedicou um dia à Claude Lévi-Strauss e lançou uma publicação em sua homenagem. Aliás, merecidas homenagens não faltaram.
"Chega a hora em que as pessoas se cansam de ser pisoteadas pelo pé de ferro da opressão. Chega a hora, meus amigos, em que as pessoas se cansam de ser lançadas no abismo da humilhação, onde vivenciam a desolação de um pungente desespero. Chega a hora em que as pessoas se cansam de ser alijadas do brilhante e vívido sol de julho e abandonadas ao frio cortante de um novembro alpino." (1955)

“A liberdade nunca é fácil. Vem com a dificuldade e a persistência da vida. (...)
Uma velha ordem de colonialismo, de segregação, de discriminação está desaparecendo e uma nova ordem de justiça, liberdade e boa vontade está nascendo.”(1957)
“Continuem a caminhar em meio aos obstáculos. Continuem a caminhar em meio às montanhas da oposição. Se caminharem com dignidade, quando os livros de história forem escritos no futuro, os historiadores deverão olhar para trás e dizer: “Ali viveu um grande povo. Um povo com ‘negra face e carapinha’ (Sim), mas um povo que injetou um novo significado nas veias da civilização; um povo que se ergueu com dignidade e honra, e salvou a civilização ocidental da escuridão profunda (Sim); um povo que ofereceu uma nova integridade e uma nova dimensão de amor a nossa civilização” (Sim). Quando isso ocorrer, juntas cantarão as estrelas da manhã e os filhos de Deus de júbilo bradarão.” (1957)
4 DE NOVEMBRO DE 2008: O POVO AMERICANO ELEGE SEU PRIMEIRO PRESIDENTE NEGRO.
ISTO É HISTÓRIA!!!
“E digo-lhes hoje, meus amigos, mesmo diante das dificuldades de hoje e de amanhã, ainda tenho um sonho, um sonho profundamente enraizado no sonho americano.
Eu tenho um sonho de que um dia esta nação se erguerá e experimentará o verdadeiro significado de sua crença: “Acreditamos que essas verdades são evidentes, que todos os homens são criados iguais” (Sim).
Eu tenho um sonho de que um dia, nas encostas vermelhas da Geórgia, os filhos dos antigos escravos sentarão ao lado dos filhos dos antigos senhores, à mesa da fraternidade.
Eu tenho um sonho de que um dia até mesmo o estado do Mississippi, um estado sufocado pelo calor da injustiça, sufocado pelo calor da opressão, será um oásis de liberdade e justiça.
Eu tenho um sonho de que os meus quatro filhos pequenos viverão um dia numa nação onde não serão julgados pela cor de sua pele, mas pelo conteúdo de seu caráter (Sim, Senhor). Hoje, eu tenho um sonho!
Eu tenho um sonho de que um dia, lá no Alabama, com o seu racismo vicioso, com o seu governador de cujos lábios gotejam as palavras “intervenção” e “anulação”, um dia, bem no meio do Alabama, meninas e meninos negros darão as mãos a meninas e meninos brancos, como irmãs e irmãos. Hoje, eu tenho um sonho.
Eu tenho um sonho de que um dia todo vale será alteado (Sim) e toda colina, abaixada; que o áspero será plano e o torto, direito; “que se revelará a glória do Senhor e, juntas, todas as criaturas a apreciarão” (Sim).
Esta é a nossa esperança, e esta a fé que levarei comigo ao voltar para o Sul (Sim). Com esta fé, poderemos extrair da montanha do desespero uma rocha de esperança (Sim). Com esta fé, poderemos transformar os clamores dissonantes da nossa nação em uma bela sinfonia de fraternidade.” (1963)
P.S.: Um apelo à consciência: os melhores discursos de Martin Luther King. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006.
No ano passado estive em

A foto das crianças com as cadeirinhas merece uma explicação. É no pátio de uma escola na província de Kuanza Sul (5h. de carro de Luanda para lá, numa estrada que não tem nada). Primeiro você vê que há dois cômodos feitos em amianto no meio do pátio, um calor infernal... São salas de aula porque a escola é pequena para o número de alunos. As crianças estão no horário do recreio e como não há assento para todas, elas levam de casa suas próprias cadeiras, todos os dias. Na hora do recreio não têm onde deixá-las e na sala alguém pode pegá-las, por isto saem com elas, na cabeça quando estão andando. Na rua é comum ver um adulto levando pela mão uma criança com uma mochila nas costas e a cadeirinha na cabeça.
Se há alguns anos, família, casamento e trabalho eram referências, respectivamente, para projetos de vida, situações de vida e trajetórias biográficas, gradativamente percebemos que a unicidade dos conceitos (família, casamento, paternidade etc.) esconde a crescente pluralidade de situações. Se a discriminação das mulheres no mercado de trabalho era explicada por sua menor qualificação, depois da evidência do índice de mulheres com nível de instrução maior do que o de homens nos ambientes de trabalho, em alguns países e regiões, este argumento não se sustenta. Diga-se de passagem que os melhores níveis de instrução das mulheres não correspondem a melhores inserções no mercado de trabalho, o que gera contradições para as novas gerações. O argumento "atual" para a discriminação no mercado de trabalho é o papel de mãe, aliás aos olhos masculinos (e alguns femininos) não se trata de discriminação, mas de uma lei da natureza. Entretanto, fazer da questão da mulher a questão dos filhos não parece contribuir para a igualdade das mulheres. Há mudanças nas mentalidades? Sim! Evidentemente as mulheres podem pensar e agir com mais autonomia. Por sua vez, alguns homens atribuem importância à autonomia das mulheres, ao fato delas saberem o que querem, de cuidarem de seus próprios assuntos, até porque isto de certa maneira os desobriga e também faz com que repensem seus papéis. O único problema é quando as mulheres lhes fazem exigências, ou criticam coisas que podem ir de encontro a seus interesses, pessoais ou profissionais. Observem que me referi às relações entre homens e mulheres, mas não necessariamente às relações de casais, ou seja, relações que se dão tanto na esfera privada quanto na pública.

"Mobilizar para transformar: a mobilização de recursos nas organizações da sociedade civil", livro de Domingos Armani, lançado esta semana em São Paulo - na aconchegante Casa das Rosas -, tem tudo para se tornar uma referência no campo não-governamental e para estudiosos sobre o tema. Trata-se do registro de experiências realizadas em oito organizações brasileiras, entre 2002 e 2007, a partir da noção de "mobilização de recursos", introduzida no Brasil pela Oxfam GB. A abordagem é inovadora no debate sobre a sustentabilidade das organizações da sociedade civil.
Reunião Final do Programa de Mobilização de Recursos (PMR) Oxfam GB, 2007.
Os dados apresentados neste relatório foram coletados em um survey realizado em fevereiro e março de 2008 e traduzem as percepções daqueles que são alvo de discriminações, assim como os efeitos da mesma e sua perspectiva legal. Foram entrevistadas 26746 pessoas, sendo 12797 homens e 13949 mulheres, nos países da UE.
Foi considerado importante delimitar o contexto, no caso o contexto europeu, caracterizado por uma grande diversidade de grupos sociais, além da percepção de alguns poucos europeus que se vêem como um grupo minoritário. Contextualizando a discriminação também foi possível identificar os processos históricos, culturais, sociais e políticos e perceber o que é significativo para a existência da discriminação na sociedade. Vários europeus entrevistados afirmaram ter amigos de diferentes religiões, de diferentes países e com atitudes culturais diferentes, especialmente com relação à homossexualidade. Estes contatos variam de acordo com a referência sócio-demográfica do entrevistado.
3% dos europeus disseram ter passado por experiências de múltiplas discriminações no último ano. Por sua vez, a maioria dos europeus entrevistados desconhece seus direitos referentes à discriminação.
De modo geral, as maiores discriminações identificadas estão relacionadas principalmente à origem étnica e à orientação sexual. Exceto no caso da origem étnica, a discriminação é vista como decrescente nos últimos cinco anos.
Importante notar que a pesquisa revelou que há uma relação clara entre a experiência com a discriminação e o fato do entrevistado se sentir parte de uma minoria, o que esteve mais presente nos grupos de indivíduos com alguma incapacidade (31%) ou referência étnica (23%), seguidos empatados por orientação sexual (12%) e religião ou crença (12%).
15% dos entrevistados afirmaram ter sofrido algum tipo de discriminação no último ano que antecedeu a pesquisa, quais sejam: gênero; incapacidade; origem étnica; idade; orientação sexual; religião ou crença.
Alguns fatores chamaram a atenção no perfil dos entrevistados que disseram sofrer discriminação. O fato de serem mais jovens, terem estudado continuamente por mais tempo e viverem em área urbana.
Todos os aspectos abordados na pesquisa demonstram que há fatores a serem considerados nos instrumentos de avaliação e qualificação no momento de uma seleção admissional. Neste sentido, incentiva-se medidas específicas visando a igualdade de oportunidades no emprego. Vale a pena conferir o relatório na íntegra.

Hoje começa a XVII International AIDS Conference, na cidade do México. É a primeira vez que a Conferência Internacional sobre Aids acontece na América Latina. A expectativa é de que se reúnam em torno de 22 mil pessoas de todo o mundo, entre ativistas, cientistas de diversas áreas, governos, organismos internacionais e empresas.
De acordo com as estimativas do Programa das Nações Unidas - UNAIDS, em dezembro de 2007 estimava-se 33,2 milhões [30,6–36,1 milhões] de pessoas vivendo com o HIV no mundo. Na América Latina e no Caribe são cerca de seis por cento deste total, estimando-se um intervalo entre 1.6 e 2.2 milhões de pessoas vivendo com HIV na região. A prevalência na população adulta para a região é de 0.5%. Isto mostra a permanência da gravidade da epidemia e dá indícios sobre os enormes desafios a serem enfrentados.
No Caribe estimou-se no final de 2007, 230 mil pessoas vivendo com HIV [210000–270000]; a prevalência do HIV em adultos era de 1%, no Haiti e na República Dominicana sendo mais elevadas. As estimativas para América Latina sugerem que a epidemia permanece estável, sendo as relações sexuais sem proteção o principal meio de transmissão. A epidemia continua presente nas populações vulneráveis, como homens que fazem sexo com homens e prostitutas. Por sua vez, é sabido que o estigma sobre estas populações as torna mais vulneráveis à epidemia e as distancia dos sistemas de saúde e das redes de apoio.
O número estimado de pessoas que vivem com HIV/aids na América Latina no final de 2007 foi o de 1.6 milhões [1,4 millones–1,9 millones], e em torno de um terço delas reside no Brasil (UNAIDS, 2008). Mesmo que a epidemia de aids ainda esteja presente entre os homens que fazem sexo com homens na América Latina, em vários países registra-se uma queda na razão homem-mulher, o que pode indicar uma mudança na dinâmica da epidemia na região ou um melhor registro dos casos de mulheres a partir de programas específicos (especialmente no caso de mulheres grávidas).
A Conferência poderá ser acompanhada pela Internet através dos sites da Kaiser Network e do Programa Nacional de DST e Aids, do Ministério da Saúde.
Que a Internet revolucionou a comunicação no tempo e no espaço, isto já é sabido, mas as situações cotidianas sobre as quais vamos tomando conhecimento não deixam de surpreender. Em abril, a matéria Estaciónate y escribe, da BBC Mundo deu destaque ao caso de uma mulher que ficou sem moradia, em Londres, e estava vivendo em seu carro, mas através de um blog se comunicava internacionalmente. Inclusive, dado a repercussão do caso, chegou a ser entrevistada pelo The New York Times. Utilizando a Internet numa biblioteca pública, ela estava desconectada do que a cercava, mas se conectava incógnita com pessoas que estavam a milhares de kilômetros de distância, para as quais narrava suas experiências.
Outro exemplo é o fato amplamente conhecido dos blogueiros que se tornam quase 'jornalistas' ao revelarem situações de opressão e ausência de democracia em seus países, especialmente se a imprensa é censurada. A organização Repórteres Sem Fronteira chegou a publicar um guia, o Handbook for Bloggers and Cyber-Dissidents.
Na vida profissional, já tive algumas gratas surpresas, não só através do blog, mas até mesmo de e-mail. Certa vez identifiquei um artigo de um cientista político em um site de uma universidade americana e queria utilizá-lo, mas o autor pedia que lhe fosse solicitada autorização para isto. Então, enviei-lhe uma mensagem um pouco descrente e antes mesmo de começar a fazer outra coisa, recebi uma resposta imediata. Ele autorizou o uso do artigo e, coincidentemente, havia chegado do Brasil na véspera e estava muito contente com os dados que conseguiu para sua pesquisa – Cada vez mais, o mundo é uma província!!! - Não nos conhecemos, mas tivemos um contato imediato, rápido e eficaz através da troca de duas ou três mensagens.
Outra experiência pela qual o leitor certamente já passou é a de reencontrar pessoas, recebendo mensagens inesperadas ou, por exemplo, através do orkut. É interessante como as trocas de mensagens podem aproximar. Por sua vez, o contrário também acontece. Quantas vezes colegas de trabalho se comunicam por e-mail estando sentados em mesas vizinhas? Isto já virou rotina. Para quem escreve, a sensação do tempo otimizado é inegável, mas para quem recebe, otimizado é o ritmo da entrada de mensagens em sua caixa de e-mail.
Outro dia ouvi alguém dizer que isto era uma bobagem, porque se o projeto for bom mesmo conseguirá apoio financeiro. Será? Na prática, não parece ser bem assim. É sabido que organizações da sociedade civil que trabalham com crianças e adolescentes ou meio ambiente, por exemplo, têm mais apelo social e, portanto, mobilizam e geram mais interesse em torno de suas causas. Governos, igrejas, empresas querem apoiá-las. Sem nenhum demérito para a importância destes temas, mas apenas como um exercício reflexivo, por que redução de danos não teria? Porque, talvez, o tema drogas não possibilitasse discutir aspectos econômicos, ou interferisse demais... ? Talvez não pudesse ser tornado público por uma empresa? Afinal, que imagem esta empresa venderia?

Sob a bandeira na Parada Gay
Historicamente, até pouco tempo a visibilidade gay era impensável e hoje a mobilização de recursos em torno da Parada Gay é inquestionável. Se antes associar o nome de uma organização ou empresa ao tema gay, além de ser visto como pouco relevante também gerava um estigma sobre a própria organização - afinal, o que ela teria a ver com este tema? – hoje, cada vez mais, faz parte de uma abertura à diversidade social e sexual, ou à expectativa de que ‘podemos viver juntos’, lucrando. É claro que isto não acaba com o estigma, mas gera tolerância e melhor convivência, inegavelmente. Ainda assim, o leque de possibilidades no que se refere ao apoio a projetos sociais caminha lentamente.
Desfile da Daspu, no VII Congresso Brasileiro de Prevenção às DST e Aids
Outro estigma forte e sobre o qual tenho pensado ultimamente é sobre as prostitutas. Primeiro, basta observar que saindo de um ambiente onde as pessoas estão familiarizadas com o debate a respeito, poucos conhecem a existência de uma Rede Brasileira de Prostitutas. Muito(a)s ainda têm ‘curiosidade’ em saber o que elas pensam e isto é sincero, porque é fruto do desconhecimento sobre um universo distante, a despeito da crescente repercussão na imprensa e da visibilidade da Daspu. E, a distância social é sempre relativa. Aliás, para ser justa, depois do sucesso da Daspu alguns poucos parceiros têm se mostrado um pouco mais.
É difícil dissociar aspectos ligados em torno de uma temática, portanto pensar sobre o estigma – a marca que fica, é reificada, mas pode ser manipulada – é também não perder de vista os segmentos da população que estão vinculados a estes temas, o fato de alguns terem mais apoios governamentais que outros (em setores diversos) e quase nenhum apoio do setor privado, do associativismo trazer um apelo político muitas vezes visto em oposição à gestão organizacional, entre outros. Mas, estes já são temas para outro post.
Todos que em algum momento fizeram parte de uma organização conhecem o chamado Conselho Administrativo, ainda que existam concepções diferentes sobre como compô-lo. Muitas vezes, as organizações da sociedade civil preferem incluir pessoas no Conselho que lhes dêem visibilidade pública, ou que possuam um capital social que lhes permita abrir portas para novas parcerias e possibilidades de financiamento. Seja como for, os Conselheiros são escolhidos para desempenhar um papel externo e, de certo modo, de porta-voz da organização. Entretanto, o papel do Conselho Administrativo parece estar mudando. É preciso também situar-se no ambiente político interno.
Para as organizações da sociedade civil, em muitos casos o distanciamento com as necessidades e desafios cotidianos assumidos pela Diretoria ou Coordenação Executiva da organização, pode criar dissonâncias quanto aos procedimentos e prioridades sobre os eixos de atuação da mesma, ou ainda fazer com que os Conselheiros estejam totalmente alheios à dinâmica de trabalho e muitas vezes sintam-se “pegos de surpresa” quando se deparam com o que consideram mudanças radicais. Por sua vez, o Conselho Administrativo, cada vez mais, têm sido apontado como um indicador para se avaliar a qualidade e a eficiência da gestão de uma organização. Este tem sido um debate atual para as empresas, especialmente as que se apresentam publicamente vinculadas a ações sociais.
Seja como for, os Conselheiros de uma organização começam a perceber que não basta usar de seu status de bem feitores. É preciso se comprometer com o andamento da organização e ser co-partícipe de seus compromissos. Claro que existem muitos Conselheiros comprometidos, mas isto também não significa que no conjunto, com seus pares, todos tenham clareza sobre os papéis de cada um e o papel do próprio Conselho para a organização. No cotidiano de trabalho, se o entendimento não for refletido e partilhado, corre-se o risco de, por um lado, gerar falsas expectativas e, por outro, os Conselheiros serem ignorados ou entrarem em conflito com quem está à frente da organização, simplesmente por falta de entendimento sobre os papéis individuais e coletivos que cada um deveria desempenhar para melhor realizar a missão institucional com a qual supostamente todos estão afinados.
O que lhe vem a mente ao ler a palavra classe? Etiqueta? Vida social? Categoria profissional? Sala de aula? Um pouco de tudo isto?!
Pois bem, a tradição sociológica tem explicado a dinâmica social a partir do conceito de classe. De modo geral, a classe está baseada na economia (mas não só). É entendida como um agrupamento de pessoas, em larga escala, compartilhando recursos econômicos que influenciam seus estilos de vida. É a idéia de classe que fundamenta o sistema de desigualdades sociais baseado na posse e no controle de recursos materiais. Entretanto, também é sabido que as posições de classe são conquistadas, não são determinadas, e as pessoas podem se mobilizar socialmente, ainda que as chances e oportunidades sejam diferentes para os que ocupam posições diferentes. A hierarquia destas posições é o que caracteriza a estratificação social, evidenciando as desigualdades existentes entre indivíduos e grupos sociais.
Quando afirmei acima que a classe não está baseada somente na economia, tal como enfatizado inicialmente por Karl Marx, pensei nos desafios atuais marcados por um crescente processo de individualização e, ao mesmo tempo, em um outro pensador – Max Weber – para quem as chances de vida dependem não só dos meios de produção, mas também de aptidões e qualificações. Na verdade, os dois pontos de vista não são totalmente antagônicos. O sociólogo francês Pierre Bourdieu, por exemplo, explorou a possibilidade de nos utilizarmos de diversos tipos de capital, trazendo à tona um desafio para a reflexão sobre o conceito de classe e sobre o sentimento de ‘pré-destinação’ por pertencer a uma classe: os estilos de vida. Outro fator que complexifica o debate inevitável, que segue na ordem do dia, é a correlação entre as relações sociais de gênero e a estratificação social. O entrecruzamento de classes na família e o fato de cada vez mais mulheres manterem sozinhas o sustento da mesma, põe em questão o poder econômico e o papel dos homens como provedores e proprietários.
Será que esta conversa procede na prática da gestão? Corrobora ou modifica suas percepções sobre as relações entre indivíduos e grupos?
E então? Você tem classe?
Uma das coisas que pode parecer óbvia, mas sempre me surpreende é como nos apropriamos diferenciadamente das palavras, ou profissionalmente, das categorias e conceitos, e não nos apercebemos disto. Por exemplo, quando falamos em elaboração de projetos e trabalhamos sobre um mesmo formulário, na maioria das vezes não estamos atentos ao fato de que este pode ser lido de diversas maneiras. Durante uma conversa coletiva, objetivos, justificativa ou metodologia parecem ser termos consensuais nos enunciados das diversas etapas de um projeto. Entretanto, quando dialogamos com pessoas de setores diferentes, isto não é bem assim. Além disto, uma coisa é ouvir, outra é fazer. Quando se está fazendo uma apresentação e a platéia aparenta entendimento e seguimento do raciocínio que está sendo encadeado, não raro, se houver a possibilidade de um exercício prático, logo será possível perceber que os entendimentos foram diferenciados e certamente isto gerará repercussões nos trabalhos cotidianos daquelas pessoas.
Como os equívocos e até mesmo perdas de financiamento por isto, poderiam ser minimizados? A resposta aparentemente óbvia e já desenvolvida por algumas instituições é criar um manual, um guia ou, no mínimo, definições de cada item para que aqueles que pretendem desenvolver o projeto saibam o que se está esperando receber, a partir da temática proposta. Esta saída já existe por parte de vários órgãos governamentais e fundações, entretanto parece que isto nem sempre tem sido suficiente. Não raro, a qualidade dos projetos recebidos numa seleção ainda apresenta divergências no entendimento do próprio formulário, além das lacunas que dependerão do contexto e do mérito de quem submete o projeto. Os financiadores demonstram desapontamento, os candidatos se frustam ou até acham que sua proposta não foi compreendida ou mesmo considerada.
No momento, vale a pena destacar duas coisas. Em primeiro lugar, dependendo do ‘público candidato’, pode haver o entendimento de que o projeto é apenas um formulário a ser preenchido, sem a devida reflexão sobre como adequar sua prática à lógica de um projeto – com começo, meio e fim –, diferente da dinâmica organizacional, que muitas vezes passa desapercebida. Em segundo lugar, do ponto de vista do financiador, mesmo que as categorias estejam descritas num manual que oriente o preenchimento do formulário, muitas vezes a definição mais confunde do que ajuda, porque a linguagem utilizada não é simples, não é acessível, ou o entendimento sobre a lógica de um projeto é meramente formal e não oferece exemplos ou dá margens à dinâmica e aos contextos sociais. E, contextos sociais diferentes geram entendimentos, apreensões de conceitos e valores, e alcances diferentes, ainda que pensemos que falamos a mesma língua. Por tudo isto, a elaboração de projetos continua sendo um tema em discussão e talvez seja necessário pensarmos em alternativas mais interativas e construções de sentido compartilhadas.
Métodos participativos remontam à tradição da pesquisa-ação e, em alguns contextos, tornaram-se inquestionáveis. Cada vez mais, observamos um interesse crescente na avaliação de projetos, por exemplo, buscando-se integrar métodos quantitativos, qualitativos e a participação dos sujeitos da ação. Não raro, o processo participativo foi colocado em segundo plano como sendo fruto do engajamento do investigador ou meramente uma atitude ‘politicamente correta’, contraponde-se o mesmo a trabalhos considerados mais sérios de ‘experts’ em pesquisas quantitativas e qualitativas. Sem falar que é quase um pressuposto que dados quantitativos rigorosos só podem ser provenientes de surveys ou mensurações científicas, e que as abordagens participativas somente geram insights qualitativos. Felizmente, a concepção de uma abordagem triangulada tem contribuído para superar esta falsa dicotomia.
Quando as condições propiciam um bom andamento do trabalho e pode-se acompanhá-lo sistematicamente, a participação pode gerar não só insights qualitativos, mas também dados quantitativos que são normalmente mais próximos da realidade daqueles diretamente interessados. Neste sentido, as abordagens participativas são entendidas como sendo a base, não uma simples opção para o monitoramento e a avaliação, especialmente de impacto. Métodos participativos podem contribuir para o fortalecimento da sociedade civil e para dar transparência ao desenvolvimento dos processos.
A outra face da moeda é que os métodos participativos também trazem desafios que precisam ser considerados. O aproveitamento dos resultados de um processo participativo dependerá de seu uso e do contexto. Um aspecto a ser observado é que a ênfase sobre o consenso pode privilegiar posições dominantes e deixar de lado aquelas que aparecem em desvantagem, apesar da aparência de um processo participativo. O fato de determinado grupo de indivíduos estar fazendo parte de um ‘processo participativo’ não significa necessariamente que suas observações e necessidades estejam sendo consideradas.
Outro aspecto diz respeito às diferenças entre os atores sociais envolvidos e suas posições sobre o objeto em questão. Os conflitos de interesse geram dificuldades a serem resolvidas, exigindo negociações. É essencial reconhecer estas diferenças e os potenciais conflitos para que uma avaliação possa contribuir para mudar o patamar da situação encontrada.

Hoje decidi criar um novo espaço de diálogo, divulgação e trocas profissionais. Estou inaugurando meu blog uol. Bem-vindos! Espero que gostem.
Para marcar este dia, começo divulgando a Revista Eletrônica Portas. No início de julho de 2008 será lançado o terceiro número. A proposta é trazer à tona opiniões e experiências diferentes de profissionais de setores diversos. Não está sendo fácil mantê-la voluntariamente, mas tem sido um grande prazer conhecer e apresentar novas pessoas, experiências de trabalho e formas de fazer política. Confira e participe!
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